Capítulo 3

Proteger as populações através de uma maior segurança sanitária

Relatório do Director Regional · Capítulo 3

UM FARDO PESADO E PERSISTENTE

120+
Emergências de saúde pública registadas todos os anos na Região Africana
80%
de surtos
20%
de crises humanitárias

Emergências recorrentes, sobrepostas e interligadas continuam a ameaçar a saúde, a perturbar os serviços e a aprofundar as vulnerabilidades em toda a Região.

Para a Região Africana, o período de 2025-2026 não foi um ano de surtos isolados definidos face a uma base de referência calma; a base de referência foram emergências recorrentes. O surto da doença por vírus Ébola (DVE) em Bulape, seguido dos surtos da doença por vírus Ébola (DVE) causada pelo vírus Bundibugyo na República Democrática do Congo e no Uganda, desenvolveu-se em paralelo com a cólera, a varíola símia, o vírus de Marburgo, a meningite, a dengue, cheias e crises humanitárias. Estas foram algumas das mais de 120 emergências de saúde pública registadas anualmente na Região, 80% destas surtos e as restantes 20% crises humanitárias (1).

Em 2025, mais países foram afectados pela cólera do que em qualquer um dos três anos anteriores, tendo sido registados 245 472 casos, incluindo 5344 óbitos – uma taxa de letalidade (TL) de 2,2% – em 24 países (2), o que fez retroceder os progressos rumo às metas de eliminação da cólera para 2030. Entre Julho de 2025 e Junho de 2026, a varíola símia continuou a propagarse, tendo chegado aos 21.306 casos confirmados e 121 óbitos - ou seja, uma taxa de letalidade de 0,6% em 30 países, embora o estatuto de ESPDI lhe ter sido levantado em 2025. Houve igualmente outros surtos significativos, nomeadamente de febre de Lassa, dengue, febre do Vale do Rift e difteria, a par de eventos relacionados com o clima, como cheias e ciclones que afectaram a África Oriental e a África Austral.

No mês de Setembro de 2025, as alterações introduzidas no Regulamento Sanitário Internacional (RSI) em 2024 entraram em vigor em 46 Estados-Membros do continente africano. Além disso, o grupo sobre hantavírus a bordo de um navio de cruzeiro, em Maio de 2026, mobilizou 23 pontos focais nacionais do RSI em quatro continentes no âmbito de uma resposta coordenada - numa demonstração clara quanto ao cumprimento do RSI. As capacidades de preparação têm vindo a reforçar-se à medida que os países respondem com uma independência crescente e a resposta por si só é mais ágil: o surto de Ébola em Bulape pôde ser controlado em 88 dias. No entanto, o actual surto de doença por vírus BVD é um lembrete vincado quanto à complexidade ainda maior de gerir emergências de saúde pública quando estas se sobrepõem a conflitos armados.

A contribuição da Região para a missão “proteger a saúde” do Décimo Quarto Programa Geral de Trabalho (PGT14) centra-se na prevenção, preparação, detecção e resposta a emergências sanitárias para assegurar que um choque numa comunidade não é replicado como uma catástrofe em muitas outras. Esses esforços partilham de uma lógica unificadora com o remanescente do relatório: a capacidade instituída para uma emergência é criada para ser duradoura. tirando partido da plataforma de cuidados de saúde primários que presta cuidados de rotina, a força de trabalho mobilizada para um surto, a rede laboratorial que sequencia um poliovírus e o sistema de vigilância que detecta uma ocorrência precocemente continuam a servir a população assim que a emergência tiver passado.

preparação para emergências; vigilância colaborativa e alerta precoce, reerguidas nos termos das alterações do RSI de 2024; maior celeridade no controlo de surtos, mercê de uma força de trabalho que passou a ser transfronteiriça em pouca horas e deixou atrás de si uma capacidade permanente; uma infra-estrutura antes afecta à poliomielite que doravante protege a Região contra muito mais doenças; e uma resposta à resistência aos antimicrobianos seguindo a abordagem “Uma Só Saúde”, que manteve os medicamentos de hoje eficazes e a continuidade dos serviços essenciais de saúde.

Perante o panorama apresentado no Capítulo 1, o Escritório Regional da OMS para a África trabalhou com os Estados-Membros para desenvolver capacidades capazes de perdurar. As reformas institucionais que sustentaram esta resposta são aprofundadas no Capítulo 5, o financiamento de que dependem é alvo de atenção no Capítulo 6, e a agenda de resiliência que alimenta vem circunstanciada no Capítulo 7.

01Os países estão preparados para enfrentar ameaças à saúde pública e prevenir a propagação transfronteiriça de agentes patogénicos

Esta secção dá conta do contributo da Região para as funções de preparação e resposta da missão “proteger a saúde”: estabelecer os quadros jurídicos e as capacidades de preparação necessárias para identificar e prevenir perigos de alto risco, medir as capacidades de preparação e identificar as prioridades que protegem a saúde e limitam as consequências sócio-económicas das emergências.

Surto de doença pelo vírus Ébola na província do Kasaï, República Democrática do Congo, Setembro de 2025© OMS / Josua Mulala
WHO response to Ebola disease caused by Bundibugyo virus, Uganda, June 2026

Principais resultados

Na sua totalidade, os 47 Estados-Membros adoptaram as alterações ao RSI de 2024, e 46 concluíram o processo da sua entrada em vigor em 2025; 13 criaram autoridades nacionais do RSI, que é um dos novos elementos trazidos por essas alterações.

O relatório anual de auto-avaliação dos Estados-Partes (SPAR) foi completado na íntegra pelo nono ano consecutivo: a média das capacidades essenciais regionais subiu, de 42% em 2018 passou para 51% em 2025, tendo o domínio da vigilância registado o maior ganho. O primeiro relatório anual do RSI da Região expõe os pormenores da implementação do RSI em África.

Dos 47 Estados-Membros da Região, 41 (87%) concluíram uma segunda ronda de Avaliação Externa Conjunta (AEC) das capacidades essenciais do RSI, tendo 10 países atingido o nível 3 (capacidade de desenvolvimento) ou superior em 2025, quando em 2016 só houve um, e apenas três países permaneceram no nível mais baixo de capacidade (nível 1) em 2025, quando em 2016 foram 27. Quarenta e um países utilizaram os resultados da AEC para elaborar planos de acção nacionais para a segurança sanitária (PANSS), e foram mobilizados 225 milhões de dólares em recursos do Fundo para as Pandemias para reforçar as capacidades essenciais do RSI.

Outros onze países (elevando o total para 35) identificaram os seus perfis de risco de perigo aplicando o Conjunto de Ferramentas Estratégicas para a Avaliação dos Riscos (STAR) durante o período em análise. Foi elaborado um sistema inovador de Troca de Dados sobre Preparação (PDX) que já abrange os 47 países todos; trata-se de um sistema de inteligência integrada da preparação (IA) que funciona como uma plataforma de alerta precoce relativamente a todos os perigos, integrando medidas de antecipação e de previsão.

Em Junho de 2026, 19 países (um aumento face a cinco em 2023) tinham identificado as suas Áreas Prioritárias para Intervenções Multissectoriais (PAMI), um pré-requisito para a eliminação da cólera e a vacinação preventiva; 24.454.867 doses de vacina oral contra a cólera foram administradas em 11 países, e 2.332.368 pessoas foram vacinadas contra a varíola símia em 17 países. Relativamente à DVE, foram entregues 52.010 doses de vacina à República Centro-Africana para apoiar a vacinação preventiva dos profissionais de saúde e trabalhadores na linha da frente, enquanto 48.090 doses foram entregues à República Democrática do Congo para apoiar a vacinação em resposta a surtos.

Destaques dos países

Gana

O Gana transpôs para o seu ordenamento jurídico as alterações de 2024 ao Regulamento Sanitário Internacional, mais especificamente integrou-as na legislação sobre cobertura universal de saúde, num único pacote legislativo em vez de dois processos separados. A Região está agora a promover activamente este modelo, uma vez que concilia a base jurídica da segurança sanitária com a base jurídica do financiamento da saúde, assegurando que tanto as obrigações inerentes à preparação como ao financiamento para cumpri-las constam da lei.

02Os 47 Estados-Membros na sua totalidade transformam os seus sistemas de vigilância e laboratoriais a favor de uma detecção mais rápida

Esta secção apresenta a contribuição da Região para as funções de prevenção e detecção da missão “proteger a saúde”: a capacidade de vigilância e alerta precoce, construída ao abrigo das alterações ao RSI, sobre a qual assenta tudo o resto. Em termos práticos, o retorno surge onde é mais importante: na celeridade com que os eventos passaram a ser detectados.

Principais resultados

A detecção surgiu mais cedo em virtude das reformas jurídicas: 71% das ocorrências de saúde pública em 2025 foram detectadas no prazo de sete dias e, desde 2017, o tempo dispendido até à detecção vem baixando constantemente.

O pólo de Dakar, em parceria com o Instituto Pasteur e as redes laboratoriais do Centro Africano de Prevenção e Controlo de Doenças servem de esteio à coluna vertebral da vigilância regional.

O conjunto de ferramentas estratégicas para a avaliação dos riscos foi aplicado em mais 11 países, um aumento de 13% comparativamente a 2024. Outrossim, a Região elaborou a ferramenta de intercâmbio de dados sobre preparação, assente na IA, que interliga os dados sobre perigos, preparação e sistemas de saúde, associada à primeira consulta de peritos sobre IA para emergências de saúde a realizar em África.

Todos os Estados-Membros possuem agora capacidade de sequenciação. O produto da sequenciação aumentou em conformidade: relativamente à COVID-19, de menos de 5500 sequências em 2020 passou para mais de 183.500 em 2025; relativamente à varíola símia, de menos de 500 sequências em Julho de 2024 passou para mais de 2700 em Novembro de 2025.

A plenitude da vigilância e resposta integradas às doenças subiu em 46 Estados-Membros, de 70% em 2024 passou para 94% em 2025, com uma pontualidade que varia entre os 55% e 66%; a plataforma centralizada de vigilância e resposta integradas às doenças está agora a ser utilizada em 40 Estados-Membros (85%), estando 24 países formados em análise avançada de surtos, análise colaborativa e modelização.

A iniciativa de recolha de informações sobre epidemias a partir de fontes abertas foi alargada a 44 Estados-Membros (94% da Região), tendo sido formados mais de 1500 funcionários em 67 acções de formação. Anualmente, são agora detectados mais de 100 sinais, com uma taxa de confirmação de 60%.

A Unidade de preparação para as emergências e resposta laboratorial do Escritório Regional da OMS para a África fez progressos significativos no reforço dos sistemas laboratoriais e da capacidade de diagnóstico na Região toda, graças a avaliações laboratoriais direccionadas, ao rápido incremento do diagnóstico, a iniciativas de garantia de qualidade e a uma vigilância genómica alargada.

03Respostas mais céleres a emergências de saúde pública, deixando atrás de si capacidades nacionais mais sólidas

Durante o período em apreço, de Julho de 2025 a Junho de 2026, a OMS apoiou os Estados-Membros de toda a Região Africana na resposta rápida a emergências de saúde pública, tirando partido das capacidades nacionais, regionais e mundiais. Este apoio foi alinhado com as prioridades do pilar “proteger a saúde” do PGT14, a Estratégia Regional para a Segurança e as Emergências Sanitárias 2022-2030 e o Quadro de Resposta a Emergências da OMS. Concentrou-se não somente na contenção de surtos e na redução do impacto das emergências em saúde, mas ainda em assegurar que os investimentos na resposta favoreçam também o reforço dos sistemas nacionais, a manutenção dos serviços essenciais de saúde e a melhoria da preparação para futuros embates.

Estima-se que África tenha representado cerca de 45 % do número total de casos humanitários ao nível mundial, com aproximadamente 134 milhões de pessoas em situação de necessidade em 2025 (3). Após um número recorde de 167 milhões de Africanos que se depararam com uma grave insegurança alimentar em 2025, estima-se que 120 milhões de pessoas venham a sofrer de insegurança alimentar, no grau de crise, por todo o continente em 2026 (4). Dentro da Região, 18 países foram classificados como frágeis, afectados por conflitos e vulneráveis, encontrando-se 11 grupos de saúde em modo de resposta, o que significa que o controlo de surtos, a coordenação da saúde humanitária e a continuidade dos serviços essenciais tiveram de ser geridos conjuntamente, em particular nas zonas afectadas por conflitos, deslocamentos populacionais, insegurança alimentar e choques climáticos.

Resposta da OMS à doença pelo vírus Ébola causada pelo vírus Bundibugyo, Uganda, 24 de Junho de 2026© OMS / Natalie Ridgard

Principais resultados

O surto de DVE na Zona de Saúde de Bulape, na República Democrática do Congo, foi contido em 88 dias, tendo-se registado 64 casos, 45 óbitos e 19 sobreviventes segundo as notificações; e não se propagou para além da zona de saúde afectada (5).

Dados adicionais relativos ao período entre Julho de 2025 e Junho de 2026 indicam que a implementação do Pacote H3 aumentou de 50% para 83%, enquanto o Sistema de monitorização da disponibilidade de recursos e serviços de saúde monitorizou 26.354 unidades de prestação de serviços em 9865 unidades de saúde.

Houve 1300 destacamentos do AVoHCSURGE em 2025 - 1218 nacionais e 82 internacionais - a par disso 489 socorristas adicionais foram formados em oito países e 40 instituições africanas estão agora activas na Rede Mundial de Alerta e Resposta a Surtos (GOARN).

A resposta à cólera em vários países obteve ganhos mensuráveis pese embora o risco contínuo de transmissão. A cólera permaneceu generalizada, com mais de 245 mil casos e 5238 óbitos notificados em 24 países durante 2025-2026; no entanto, as medidas de resposta integrada reduziram a taxa de letalidade notificada de 2,01% para 1,14% até ao final de 2025. Só entre o terceiro e o quarto trimestre de 2025, a taxa de letalidade caiu de 2,46% para 1,57% e os óbitos baixaram de 65%, apesar da transmissão contínua. Foram administradas quase 30 milhões de doses da vacina oral contra a cólera, integradas com a vigilância, a gestão de casos, as medidas relativas a água, saneamento e higiene (WASH) e as intervenções ao nível comunitário. A cólera foi contida com êxito no Chade (8), na Namíbia, no Ruanda, na República Unida da Tanzânia, no Quénia, na República do Congo, na Zâmbia e em Angola, tendo havido reduções significativas dos casos notificados no Sudão do Sul.

Em contextos frágeis, afectados por conflitos e vulneráveis, a implementação do Pacote de Serviços Essenciais de Saúde H3 aumentou a disponibilidade de serviços de aproximadamente 50% para mais de 80%, havendo vários países que atingirem uma cobertura mínima de 90%. A OMS e os seus parceiros apoiaram a continuidade dos serviços essenciais através de 9865 unidades de saúde em 18 contextos frágeis, alcançando mais de 23 milhões de pessoas em 2025 (6).

A capacidade de intervenção nacional e regional também aumentou significativamente: através do Corpo Africano de Voluntários para a Saúde (AVoHC)-SURGE, mais de 2600 socorristas receberam formação em 32 países e 26 países activaram as suas bolsas nacionais de pessoal pré-qualificado.

A resposta à varíola símia passou da fase de controlo de emergências para a fase de transição e integração. Na sequência de esforços regionais e continentais sustentados, o Director-Geral da OMS determinou, em 5 de Setembro de 2025, que o recrudescimento da varíola símia deixou de constituir uma ESPDI (7). Posteriormente, a República Democrática do Congo declarou o fim do seu surto nacional e a Equipa Continental de Apoio à Gestão de Incidentes de Varíola Símia foi desactivada, dando baixa a uma resposta de quase dois anos.

A capacidade logística regional sustentou a rapidez da resposta de emergência. O relatório anual documenta quase 5 milhões de dólares em produtos vitais movimentados através dos pólos de Nairobi e de Dakar em 2025; os dados preliminares do RC76 indicam ainda o recebimento de 218 remessas avaliadas em mais de 4 milhões de dólares, o envio de 240 destacamentos avaliados em 9,39 milhões de dólares e aquisições de emergência superiores a 9 milhões de dólares para 24 países, mediante 377 ordens de compra emitidas entre Julho de 2025 e Junho de 2026.

Visita do Diretor Regional da OMS para a África ao centro de tratamento da mpox em Bujumbura, Burundi – Março de 2026

Destaque da resposta

Destaque da resposta A resposta à varíola símia demonstrou que uma coordenação regional constante pode fazer com que grandes emergências envolvendo múltiplos países transitem da escalada para o controlo. A resposta conjunta da OMS e dos CDC de África harmonizou a vigilância, o apoio laboratorial, a vacinação, os cuidados clínicos, a comunicação dos riscos, a coordenação entre parceiros e o apoio aos países num único quadro operacional. O que contribuiu para uma redução de 61,5% nos casos em relação a picos anteriores e apoiou a distribuição de mais de 1,17 milhões de doses de vacinas nos países afectados. A cobertura dos testes melhorou, de 57% em 2024 passou para 66% em 2026, reflectindo o reforço da capacidade laboratorial (12).

O levantamento da ESPDI contra a varíola símia em Setembro de 2025, o encerramento da resposta nacional de emergência à varíola símia na República Democrática do Congo e a desactivação da Equipa Continental de Apoio à Gestão de Incidentes (EAGI) marcaram uma transição da resposta de emergência para uma vigilância, prontidão e integração sustentadas nos sistemas de rotina.

Destaques dos países

República Democrática do Congo

O surto da doença por vírus Ébola na Zona de saúde de Bulape, na província do Kasai, mostrou a maneira como uma emergência pode ajudar a reforçar a resiliência a longo prazo. Declarado a 4 de Setembro de 2025 e oficialmente terminado em 1 de Dezembro de 2025, o surto resultou em 64 casos, 45 óbitos e 19 sobreviventes, tendo tido uma taxa de letalidade de 70,3%.

A resposta combinou o destacamento precoce, a vigilância, o rastreio de contactos, a vacinação, a gestão de casos, a prevenção e controlo de infecções, a logística, o envolvimento da comunidade e o reforço das unidades de saúde. A OMS mobilizou aproximadamente 6 milhões de dólares, destacou 112 funcionários, apoiou

Para além do surto, a resposta deixou atrás de si recursos para o sistema de saúde local. Os investimentos em abastecimento de água, energia solar, capacidade de tratamento e logística permitiram reforçar o Hospital Geral de Bulape, incluindo uma tubagem de água com 2,5 km, um reservatório para armazenamento de água com mais de 20 mil litros (14) e apoio de energia solar.

Estes investimentos deram sustento à resposta ao surto e continuarão a apoiar a preparação para futuras emergências e os cuidados de rotina.

Esta experiência mostra quão valiosa é uma abordagem de resposta à resiliência. Os mesmos investimentos que ajudaram a travar a transmissão também reforçaram a capacidade em termos de água, energia, tratamento, logística e força de trabalho no distrito afectado. Algo que deve passar a ser uma prática normalizada após grandes surtos.

Etiópia

O primeiro surto de doença por vírus de Marburgo na Etiópia foi contido em menos de três meses graças à forte liderança nacional e ao rápido apoio da OMS (15). O Ministério da Saúde e o Instituto de Saúde Pública da Etiópia activaram centros nacionais e regionais de operações de emergência de saúde pública (COESP), reforçaram a vigilância e o rastreio de contactos, designaram centros de tratamento, instalaram um laboratório móvel em Jinka e envolveram as comunidades. A OMS apoiou todos os pilares da resposta, incluindo a coordenação, o diagnóstico laboratorial, a gestão de casos, a prevenção e controlo de infecções, o enterro seguro e digno, a logística e a comunicação dos riscos.

O surto resultou em 14 casos confirmados, incluindo nove óbitos e cinco doentes recuperados, havendo mais cinco mortes prováveis (16). A OMS activou a sua resposta de emergência no prazo de 24 horas, destacou 36 peritos e redireccionou 28 funcionários para reforçar as operações no terreno. A resposta foi ainda viabilizada pelos investimentos anteriores da Etiópia na preparação em matéria de saúde pública, incluindo o reforço da capacidade laboratorial, sistemas de vigilância de doenças, uma força de trabalho de emergência qualificada e mecanismos de coordenação criados através do COESP. Tendo contado com o apoio de iniciativas como o Projecto Multissectorial de Prevenção, Preparação e Resposta à Pandemia da Etiópia e o programa AVoHC-SURGE, estas capacidades permitiram a detecção precoce, o rápido alargamento dos meios de diagnóstico, o destacamento atempado de equipas de resposta e a continuidade dos serviços essenciais de saúde.

Águas das cheias contaminam suprimentos médicos no Hospital Rural de Chókwè, Moçambique – Fevereiro de 2026

Moçambique

À medida que as alterações climáticas se acentuam a frequência e a intensidade das inundações e demais fenómenos meteorológicos extremos, as emergências relacionadas com o clima estão a tornar-se um risco recorrente para a segurança sanitária, exigindo maior preparação, vigilância e continuidade dos serviços essenciais. Em Moçambique, a OMS apoiou a resposta liderada pelo governo no quadro das inundações que afectaram mais de 720 000 pessoas em seis províncias e na cidade de Maputo. O apoio incluiu a coordenação aos níveis nacional, provincial e distrital, o préposicionamento de consumíveis essenciais, o reforço da vigilância das doenças e o destacamento de equipas de resposta rápida e de um coordenador clínico para manter os cuidados nos centros de acolhimento.

À medida que a resposta passou para a fase de restabelecimento na província de Gaza, a OMS apoiou os esforços envidados no sentido de restaurar e manter os serviços de saúde nas zonas flageladas. As inundações afectaram 100 centros de saúde, incluindo 20 que ficaram inundados e 23 que tiveram de encerrar temporariamente, enquanto 710 profissionais de saúde foram directamente afectados (17). A OMS destacou um responsável de emergência sanitária e um coordenador do grupo de saúde, enviou nove toneladas de medicamentos e consumíveis essenciais para a prevenção e o tratamento da cólera e apoiou a notificação digital diária de mais de 160 unidades de saúde por forma a reforçar a detecção precoce e reduzir o risco de surtos secundários.

04Resiliência: continuidade dos serviços essenciais de saúde para as populações protegidas durante as emergências

Entre emergências, a Região não se recosta num padrão de sossego. Tal como é evidenciado na perspectiva regional, registam-se mais de 120 emergências de saúde pública todos os anos, sendo que quatro em cada cinco correspondem a surtos de doenças, e durante o período em análise muitas ocorreram simultaneamente em vez de sequencialmente. As emergências recorrentes passaram a ser o ambiente operacional, já não a excepção. A resiliência é, por conseguinte, apresentada aqui como um resultado por direito próprio.

Este fardo persistente coincidiu com um período marcado pela contracção financeira, aliás os dados factuais são coerentes: sistemas débeis não conseguem ser resilientes (18). Os sistemas absorvem os embates através das capacidades diárias existentes previamente ao choque - governação, financiamento, força de trabalho, informação e prestação de serviços - e não através de estruturas criadas após o acontecimento (19). Uma análise exploratória da resiliência dos sistemas de saúde em África, realizada em 2026, identificou os mesmos alicerces, ao mesmo tempo que destacou o envolvimento comunitário de confiança e as infraestruturas adaptáveis enquanto pilares adicionais ou de resiliência (20). Num período de contracção financeira, isso tem implicações práticas: a Região não carece de uma arquitectura de emergência paralela nem se pode dar a esse luxo.

Portanto, a resposta da Região consiste em assegurar que cada resposta produz um dividendo duplo. Em Bulape, por exemplo, a resposta ao Ébola proporcionou a mais de 20 mil residentes uma melhoria no acesso à água potável, à energia solar e a um centro de operações de emergência reabilitado após o fim do surto - uma dupla vitória no âmbito do Quadro da Região destinado a suster sistemas de saúde resilientes para alcançar a cobertura universal de saúde e a promover a segurança sanitária, 2023–2030 (21). As comunidades são portadoras dessa resiliência: o envolvimento criado durante uma resposta é aquele que mantém a detecção e os cuidados entre elas. A recuperação alimenta a preparação, e a preparação reforça a resposta subsequente. É este ciclo, e não a velocidade de qualquer activação única, que faz com que uma sequência de respostas se torne num sistema que cresce com mais vigor ao longo do tempo. Trata-se de uma conclusão concreta dirigida aos ministros: no âmbito de uma contracção, a preparação mais económica que existe é a capacidade que a última intervenção já pagou. As prioridades abaixo transformam esse princípio numa prática normalizada.

05O impacto ampliado das infraestruturas de luta contra a poliomielite

Esta secção relata um resultado que se encontra no centro da missão “proteger a saúde” e vai muito além disso. África continua livre do poliovírus selvagem autóctone e, apesar de uma redução de 30% no financiamento mundial da poliomielite durante o período em apreço, a Região continuou a reduzir a transmissão por terceiro ano consecutivo. Os centros de operações de emergência liderados pelo país sob a liderança directa do Ministério da Saúde, a par do rápido destacamento de equipas de resposta no prazo de 72 horas após cada surto confirmado, são a arquitectura que conseguiu essa realização. As infra-estruturas criadas para encontrar e travar o poliovírus, as redes de vigilância, os laboratórios e as equipas de resposta rápida tornaram-se uma espinha dorsal comum para detectar e responder a muitas outras ameaças.

©OMS / Júlio Dengucho
QUÉNIA: Campanha de vacinação contra a poliomielite – 11–13 de Novembro de 2024© OMS / Genna Print

Principais resultados

Approximately 200 million children under 5 years of age were reached with more than 420 million doses of oral poliovirus vaccine across 17 priority countries.

Os casos de paralisia causados pelo poliovírus circulante de tipo 2 derivado da vacina caíram de 245 em 2024 para 172 em 2025 e para 40 em meados de 2026, e o número de grupos distintos de emergência diminuiu de 22 para seis.

Nove surtos de poliovírus circulante de tipo 2 derivado da vacina foram interrompidos após duas a três rondas de campanhas: no Burundi, na Gâmbia, no Gana, na Guiné-Bissau, na Libéria, na Mauritânia, na República do Congo, na Serra Leoa e no Uganda. Moçambique não detecta vírus desde o início de 2024.

A capacidade de sequenciação genómica na Região foi alargada de dois para quatro laboratórios, aumentando a percentagem de isolados de poliovírus do tipo 2 sequenciados em África de 47% em 2024 para 97% em 2026.

Cinquenta e três actividades sincronizadas de vacinação suplementar foram implementadas em 17 países prioritários, com 80% dos distritos visados a alcançarem uma cobertura de alta qualidade; foram destacados mais de 2400 funcionários para situações de emergência.

Quarenta e seis dos 47 Estados-Membros da Região operam actualmente sistemas de vigilância ambiental, enquanto 16 laboratórios acreditados processam mais de 100 000 amostras por ano.

As redes de vigilância e de laboratórios com financiamento para a luta contra a poliomielite apoiam agora a detecção do sarampo, da febre-amarela, da varíola símia e da cólera, e as equipas de resposta rápida à poliomielite foram destacadas para apoiar a resposta à varíola símia na República Democrática do Congo.

06A resistência aos antimicrobianos foi enfrentada através da governação, vigilância e tutela da iniciativa “Uma Só Saúde”

Esta secção apresenta a resposta da Região à emergência mais lenta no âmbito da missão “proteger a saúde”. Quando os antibióticos deixam de funcionar, conquistas fundamentais da medicina moderna ficam comprometidas: uma cesariana, uma pneumonia infantil ou mesmo uma cirurgia de rotina podem voltar a ter consequências potencialmente fatais. Durante o período em apreço, a Região passou da sensibilização para a governação, vigilância e gestão reforçadas necessárias para abrandar a resistência aos antimicrobianos, através de uma abordagem “Uma Só Saúde” que liga a saúde humana, animal e ambiental. Isto associa a resistência aos antimicrobianos à preparação em matéria de segurança sanitária.

O Escritório Regional convocou a resposta no âmbito da iniciativa da Região “Uma Só Saúde” com os parceiros quadripartidos (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA), OMS e Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA)) e a União Africana (CDC de África e Escritório Interafricano da União Africana para os Recursos Animais (UA-IBAR)); realizou a formação sobre cálculo de custos e orçamentação, o Inquérito de Auto-Avaliação dos Países sobre o Acompanhamento da Resistência aos Antimicrobianos (TrACSS) e o Sistema Mundial de Vigilância da Resistência e do Uso de Antimicrobianos (GLASS), e produziu perfis nacionais e regionais para apoiar a tomada de decisões com base em dados factuais. realizou o primeiro exercício de simulação regional para surtos relacionados com a resistência; liderou a Semana Continental de Sensibilização para a Resistência aos Antimicrobianos (TrACSS); e prestou apoio técnico especializado à gestão e ao uso de antimicrobianos aos países, incluindo uma avaliação dos elementos de gestão em 26 unidades de saúde centrais da Sierra Leone que produziu um modelo reproduzível. Manteve a base de dados factuais regional, publicando análises das tendências da resistência e da implementação do Plano de Acção Nacional e contribuindo com dados factuais revistos pelos pares sobre vigilância, capacidade laboratorial, infecções associadas aos cuidados de saúde e papel das vacinas (22–30).

Principais resultados

Destaques dos países

Destaques dos países A resistência aos antimicrobianos tem sido tratada desde há muito como uma preocupação laboratorial, sendo facilmente adiável para um ministério da saúde sob pressão. Em 2025, a República Unida da Tanzânia acolheu a Semana Africana Continental Mundial de Sensibilização para a Resistência aos Antimicrobianos, organizada conjuntamente pelas organizações quadripartidas e instituições da União Africana. e, ao fazê-lo, ajudou a colocar a trazer a temática da margem para o cerne da agenda regional de segurança sanitária. A escolha do anfitrião tem importância: Ao colocar a sua plataforma nacional por detrás de uma iniciativa de sensibilização continental, o Governo da República Unida da Tanzânia assinalou aos EstadosMembros que a resistência aos antimicrobianos requer uma governação coordenada em todos os sectores da saúde humana, animal e ambiental, e que os dados de vigilância que agora fluem de todos os 47 EstadosMembros inscritos no Sistema Mundial de Vigilância da Resistência e do Uso de Antimicrobianos têm de ser tomadas medidas.

Todos os 47 Estados-Membros estão agora inscritos no GLASS, e 33 estão a comunicar dados sobre a resistência para informar as decisões clínicas e de saúde pública.

A plataforma TrACSS de 2025 alcançou uma taxa de submissão regional de 100%, reforçando a responsabilização pela implementação do plano de acção nacional.

Dezassete Estados-Membros reforçaram as capacidades para elaborar planos de acção nacionais com o cálculo dos custos e orçamentados sobre a resistência aos antimicrobianos, e cinco instituíram programas de gestão e monitorização da utilização de antimicrobianos.

07Referências do Capítulo 3 (29)
  1. 1. World Health Organization Regional Office for Africa (2025) Weekly bulletin on outbreaks and other emergencies, 2025–2026. Brazzaville: WHO Regional Office for Africa.
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